O melhor fluido de freio para a sua moto é o que o fabricante especifica no manual e, em geral, na tampa do reservatório. Na maioria das motos vendidas hoje no Brasil essa especificação é DOT 4. DOT 3, DOT 4 e DOT 5.1 são fluidos à base de glicol, da mesma família, e se diferenciam principalmente pelo ponto de ebulição mínimo exigido pela norma. O DOT 5 é outro produto, à base de silicone, e não deve ser misturado com nenhum deles. Seja qual for o tipo, o fluido envelhece absorvendo umidade, e por isso os fabricantes mandam trocar por tempo, normalmente a cada 2 anos.
Para que serve o fluido de freio
No freio hidráulico, você aperta o manete ou o pedal e empurra um pistão no cilindro mestre. O fluido, que não se comprime, transmite essa força pela mangueira até a pinça, onde outros pistões apertam as pastilhas contra o disco. Se houver ar ou vapor no circuito, parte do curso do manete é gasta comprimindo bolhas, e o freio fica "borrachudo".
É aí que entra o ponto de ebulição. Numa frenagem forte e repetida, como numa descida de serra, o disco e a pinça esquentam muito e passam calor para o fluido. Se ele ferver, forma vapor dentro da pinça, e o manete pode ir até o punho sem frear direito. Quanto mais alto o ponto de ebulição, maior a margem de segurança.
Moto com freio a tambor nas duas rodas, acionado por cabo ou vareta, não usa fluido. Era o caso, por exemplo, da CG 160 Start da linha 2022, que pelo manual tinha tambor na frente e atrás. Se a sua tem disco em uma das rodas, ela tem pelo menos um reservatório.
DOT 3, DOT 4, DOT 5.1 e DOT 5: as diferenças
A sigla DOT vem do Departamento de Transportes dos Estados Unidos. A norma que define os tipos é a FMVSS 116, que fixa valores mínimos de ponto de ebulição, viscosidade no frio, corrosão e outros ensaios. A norma SAE J1703 tem exigências equivalentes às do DOT 3 para o ponto de ebulição.
A norma mede dois pontos de ebulição:
- Seco: o do fluido novo, recém-saído da embalagem lacrada;
- Úmido: o do fluido depois de absorver umidade num ensaio padronizado. Ele mostra como o fluido se comporta depois de algum tempo de uso, que é a situação real da sua moto.
| Tipo | Base | Ebulição seca mínima | Ebulição úmida mínima | Cor pela norma |
|---|---|---|---|---|
| DOT 3 | Glicol | 205 °C | 140 °C | Incolor a âmbar |
| DOT 4 | Glicol | 230 °C | 155 °C | Incolor a âmbar |
| DOT 5.1 | Glicol | 260 °C | 180 °C | Incolor a âmbar |
| DOT 5 | Silicone | 260 °C | 180 °C | Roxo |
Os valores de seco e úmido de DOT 3, DOT 4 e DOT 5 estão no texto da FMVSS 116. O DOT 5.1 aparece na própria norma como a versão "não silicone" da classe DOT 5 (o rótulo deve dizer "DOT 5.1 NON-SILICONE BASE"), por isso precisa atingir os mesmos mínimos do DOT 5.
Repare que esses são mínimos. Muitos produtos passam deles. A ficha técnica do Motul DOT 5.1, por exemplo, declara 267 °C seco e 188 °C úmido. Comparar o ponto úmido da embalagem é uma boa forma de diferenciar dois fluidos do mesmo tipo.
DOT 3
É o mais antigo dos três à base de glicol e o de menor ponto de ebulição. Aparece em manuais de motos mais antigas, às vezes como opção ao lado do DOT 4. O manual da Honda CG 150 Titan 2008, por exemplo, indica "DOT 3 ou DOT 4" para a versão com freio a disco.
DOT 4
É o padrão atual. Os manuais recentes da Honda e da Yamaha que consultamos, como os da CG 160 Titan S, da Lander 250 e da Crosser 150, pedem só DOT 4. Ele tem ponto de ebulição mais alto que o DOT 3 e é o que você vai encontrar com mais facilidade em loja de peças. Para conferir o da sua moto, veja a especificação de fluido de freio por modelo.
DOT 5.1
Também é à base de glicol, mas com ponto de ebulição mínimo igual ao do DOT 5. É usado em quem exige mais do freio, como em uso esportivo ou em motos cujo fabricante especifica esse fluido. Como é da mesma família química, os fabricantes de fluido o declaram compatível com DOT 3 e DOT 4.
DOT 5 (silicone)
Apesar do número, não é uma "evolução" do DOT 4. É à base de silicone, não absorve água como os de glicol e tem cor roxa por exigência da norma, justamente para ninguém confundir. É raro em moto de série. Se a sua moto não pede DOT 5 de forma expressa, não use.
Qual é o melhor, então?
Na prática, não existe "o melhor" no geral. Existe o certo para o seu sistema:
- Use o que o manual indica. O fabricante testou as vedações, as mangueiras e os pistões com aquele fluido;
- DOT 4 de boa procedência resolve a grande maioria dos casos, porque é o que a maior parte das motos pede;
- DOT 5.1 no lugar de DOT 4 é aceito por muitos fabricantes de fluido, mas confirme no manual da moto. Alguns manuais pedem só o tipo especificado;
- DOT 5 nunca entra num sistema projetado para glicol, e vice-versa.
Ponto de ebulição mais alto só faz diferença real se você exige muito do freio. Para uso urbano e estrada, um DOT 4 trocado no prazo protege mais do que um DOT 5.1 vencido.
Como saber o fluido da sua moto
Há três caminhos, do mais rápido ao mais completo:
- Tampa do reservatório: em geral, a especificação vem gravada na tampa do cilindro mestre, no guidão (freio dianteiro), e na do reservatório traseiro, perto do pedal. Procure "DOT 4" ou equivalente. Se a gravação estiver apagada ou se a tampa já tiver sido trocada por uma de outra moto, não confie só nela;
- Manual do proprietário: a seção de freios e a tabela de especificações dizem o tipo. Os manuais em PDF costumam estar no site do fabricante;
- Páginas do modelo no Tudo de Moto: a especificação aparece por versão e ano, como na página do fluido de freio da Honda CG 160.
Se você comprou a moto usada e não sabe o que está no sistema, a solução mais segura é fazer a troca completa com o fluido do manual. Assim você zera o histórico.
Pode misturar fluido de freio?
Aqui há duas respostas, e é preciso separar química de recomendação do fabricante.
Pela química: DOT 3, DOT 4 e DOT 5.1 são à base de glicol e se misturam sem reação. A ficha técnica do Motul DOT 5.1 diz que ele pode ser misturado com DOT 3, DOT 4 e DOT 5.1 "não silicone", e que não deve ser misturado com fluido de silicone (DOT 5) nem com fluido de base mineral. Misturar glicol com silicone é o erro grave: os dois não se combinam, e o sistema precisa ser limpo.
Pelo fabricante da moto: os manuais são mais restritivos. O da Honda CG 160 Titan S diz para usar só DOT 4 de embalagem lacrada e não misturar tipos diferentes. Os da Yamaha avisam que adicionar fluido diferente de DOT 4 pode causar reação química nociva. Siga essa orientação.
Na prática:
- Para completar o nível, use o mesmo tipo que está no sistema, de embalagem lacrada;
- Numa emergência, completar DOT 4 com DOT 5.1 (ou o contrário) é menos ruim que rodar com nível abaixo do mínimo, mas faça a troca completa assim que der;
- Misturar DOT 3 com DOT 4 reduz o ponto de ebulição da mistura para algo entre os dois. Funciona, mas você perde a margem do DOT 4;
- Silicone com glicol, nunca.
Por que o fluido vence mesmo sem rodar
Fluido à base de glicol é higroscópico: puxa a umidade do ar. Ela entra pelo respiro do reservatório, pelas vedações e cada vez que alguém abre a tampa. A água dissolvida derruba o ponto de ebulição, e é por isso que a norma exige o ponto úmido. Ela também favorece corrosão dentro da pinça e do cilindro mestre.
Esse processo acontece com a moto rodando ou parada na garagem. Por isso os fabricantes definem a troca por tempo:
- O manual da Honda CG 160 Titan S manda verificar o nível nas revisões e trocar a cada 2 anos;
- Os manuais da Yamaha Lander 250 e Crosser 150 também indicam troca a cada 2 anos;
- Fabricantes de peças como a febi lembram que a recomendação mais comum das montadoras é a cada dois anos.
Confira o prazo exato no manual da sua versão, porque ele pode mudar de modelo para modelo. A troca de fluido costuma entrar na revisão da moto do período.
Sinais de que o fluido precisa de atenção
- Fluido escuro, turvo ou com resíduo no visor do reservatório;
- Manete ou pedal "borrachudo", com curso longo;
- Freio que perde eficiência depois de várias frenagens seguidas;
- Nível caindo rápido, o que indica vazamento, e não apenas desgaste.
O nível baixar devagar é normal: conforme as pastilhas se desgastam, os pistões da pinça avançam e mais fluido fica no circuito. Os manuais da Yamaha dizem exatamente isso. Queda brusca, porém, pede revisão antes de rodar.
Cuidados ao comprar e manusear
- Embalagem lacrada e de tamanho certo. Fluido aberto continua absorvendo umidade no frasco. Prefira o tamanho que você vai usar de uma vez;
- Proteja a pintura e o plástico. Fluido de freio ataca tinta e peças plásticas. Cubra o tanque e o painel com um pano e limpe qualquer respingo na hora com bastante água;
- Proteja pele e olhos. O fluido irrita. Use luvas e óculos;
- Não deixe entrar água ou sujeira no reservatório, nem em lavagem com jato;
- Descarte certo. Fluido usado vai para a oficina ou ponto de coleta de resíduos automotivos, nunca para o ralo.
Trocar em casa ou na oficina?
A troca completa envolve abrir o sistema, empurrar o fluido velho pela válvula de sangria da pinça e tirar todo o ar. Em moto com ABS ou com CBS hidráulico, o circuito é mais complexo e pode ter procedimento próprio de sangria. Os manuais da Honda, inclusive, dizem que a troca exige habilidade mecânica e indicam a concessionária.
Se você nunca fez, leve a um mecânico de confiança e peça para ver o fluido novo saindo limpo na sangria. Freio é o item de segurança mais importante da moto; não vale arriscar uma bolha de ar esquecida na pinça.
Perguntas frequentes
DOT 4 é melhor que DOT 3?
Em ponto de ebulição, sim: a norma exige pelo menos 230 °C seco e 155 °C úmido no DOT 4, contra 205 °C e 140 °C no DOT 3. Mas o que manda é o manual. Se a sua moto pede DOT 4, não use DOT 3.
Posso colocar DOT 5.1 na moto que pede DOT 4?
Pela química, os dois são compatíveis, e fabricantes de fluido como a Motul declaram isso. Alguns manuais de moto, porém, pedem só o tipo especificado. Confira o seu e, se for trocar de DOT 4 para DOT 5.1, faça a troca completa em vez de só completar.
DOT 5 é mais moderno que DOT 4?
Não. O DOT 5 é à base de silicone, de outra família, e não se mistura com DOT 3, DOT 4 ou DOT 5.1. Só use se o manual da moto pedir DOT 5 de forma expressa.
De quanto em quanto tempo trocar o fluido de freio?
Nos manuais da Honda e da Yamaha que consultamos, a cada 2 anos, mesmo que a moto rode pouco. Confirme o prazo da sua versão no manual do proprietário.
O fluido de freio está baixo. Posso só completar?
Primeiro veja por que baixou. Se as pastilhas estão gastas, o nível desce naturalmente e volta quando você coloca pastilhas novas. Se não há desgaste e o nível caiu rápido, procure vazamento antes de completar. Para completar, use o mesmo tipo de fluido, de embalagem lacrada.
Fontes
- eCFR: 49 CFR 571.116, norma FMVSS 116 (fluidos de freio)
- Motul: ficha técnica do DOT 5.1 Brake Fluid
- febi: Brake fluid, safety in liquid form
- Honda: manual do proprietário CG 160 Titan S 2021
- Honda: manual do proprietário CG 150 Titan, Sport e Job 2008
- Yamaha: manual do proprietário Lander XTZ250 Connected
- Yamaha: manual do proprietário Crosser XTZ150 ABS
Este conteúdo é informativo. Para serviços de freio, suspensão, elétrica e motor, procure um mecânico de confiança e siga o manual da sua moto.